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Ex-dependente de cocaína, campeão de jiu-jítsu hoje luta para tirar usuários da cracolândia

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Perguntar a um atleta de alto rendimento o que ele ‘perdeu’ no tempo longo em que esteve sob treinamento é ouvir, em boa parte dos casos, que ele se privou do convívio com familiares e amigos e das atividades de lazer. Se a pergunta for feita ao lutador de jiu-jítsu Jhones Anderson da Cruz Quintiliano, 33, porém, as perdas relatadas são anteriores ao esporte –mais precisamente durante os 15 anos em que, até 2013, ele esteve sob a dependência de álcool e de cocaína, e, no ápice do vício, de ambas as drogas.

“Perdi muita coisa nesse tempo: o caráter, o amor, o orgulho, a confiança da minha família… Perdi a dignidade e o respeito”, relata. No jiu-jítsu desde 2014, ele faz questão de ressalvar também o que ganhou, desde então: “Hoje eu ganhei a vontade de sonhar em ter uma vida digna”.

O modelo de “vida digna” que o jovem negro de 33 anos egresso do Jardim Miriam (bairro de periferia da zona sul de São Paulo) descreve começou a se desenhar em 2013. Naquele ano, em outubro, Quintiliano pediu ajuda à mãe e ao irmão ao se admitir dependente químico de álcool e cocaína. Depressivo e paranoico, recorda, não conseguia sequer sair ao quintal de casa que já achava que seria atacado por um inimigo que, hoje, ele reconhece que era imaginário. O jovem foi internado em um centro de recuperação em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo) ligado à igreja Batista e, já em 2014, ele descobriria no jiu-jítsu a válvula de escape maior para se livrar do vício.

“Vi o jiu-jítsu e me apaixonei, queria fazer parte daquilo. Então entrei e me dediquei muito, tanto que meu professor viu que eu tinha algum talento, fez minha carteirinha na federação paulista e eu saí disputando. Subi cinco vezes ao pódio e ganhei dois campeonatos paulistas”, orgulha-se.

Atleta e missionário

Encerrados os oito meses de tratamento, Quintiliano fez o treinamento para ser missionário e lidar com outros dependentes químicos – esses egressos da cracolândia, na Luz, região central da capital paulista. Até então, ele diz, nunca havia frequentado o lugar. Oferecia banho, café e almoço, mas, principalmente, conversava com os usuários para convencê-los, dependendo da receptividade, a deixar aquela condição.

“Quando eu via essas pessoas, eu me via nelas. Cheguei à situação à que elas chegaram, sem esperança, sem expectativas, sonhos e metas”, diz. “Como Deus levantou pessoas no meu caminho para multiplicar o amor no meu coração, Ele me levantou também para multiplicar o amor para outras pessoas”, define.

Qual a maior dificuldade em lidar, agora missionário, com pessoas ainda imersas na droga? “Mesmo que essas pessoas não queiram ajuda, nesse momento, sei que tenho que persistir –porque persistiram por mim, e eu acordei. Se não desistirmos dessas vidas que estão na cracolândia, uma hora as pessoas cairão em si e vão acordar também.”

Para o atleta missionário, o fato de ele ser ex-dependente químico e um exemplo vitorioso no esporte facilita a interlocução com os usuários. Que mensagem as vitórias dele trazem? “Mensagem de esperança e de exemplo para eles poderem sair dessa situação. Se eu consegui sair do álcool e da cocaína e hoje sou um vencedor, eles também conseguem”, reflete.

Se a vida missionária teve o pontapé pelo esporte, a chegada às drogas, de acordo com o atleta, teve suas raízes mais cedo, com a morte do pai quando Quintiliano era ainda criança. Mais velho de três irmãos, com 12 anos começou a trabalhar para suprir as próprias necessidades de adolescente e, eventualmente, para ajudar a mãe com as despesas da casa.

Com o dinheiro nas mãos, passou também a frequentar a noite paulistana acompanhado de amigos e a consumir bebidas alcoólicas. De um desses amigos, recebeu uma porção de cocaína, para experimentar, quando tinha 17 anos. Não gostou da droga sintética, mas permaneceu no álcool.

A entrada no Exército, entretanto, voltou a colocar a cocaína no caminho dele. “Com 23 anos, mais uma vez me apresentaram a cocaína. A gente ia para muitas festas, e, depois de uma delas, eu tinha plantão no batalhão, mas cheguei muito bêbado e sem condições de atuar. Um colega me ofereceu a droga dizendo que ela ia curar minha ressaca, e que eu seguraria o plantão tranquilamente. Daí em diante, a cocaína se tornou amiga minha – viciei até os 28 anos. Saí do Exército e segui viciado; tive um filho, mas não deu certo eu ficar com a mãe dele devido ao vício. Fui para a casa da minha mãe e me afundei na depressão –não queria mais trabalhar, só queria usar a droga. Não queria saber nem do meu filho”, narra.

O que a droga representava? “No começo do vício, prazer, satisfação, emoção. Mas, no finzinho, eu até relutava em usar, mas não conseguia. Então eu usava e não queria mais sair para a rua, nem mesmo para o quintal de casa. Achava que todo mundo era inimigo, que a polícia estava sempre atrás de mim… era uma escravidão espiritual”, define.

A busca por ajuda aconteceu em “24 de outubro de 2013, uma quinta-feira”, quando Quintiliano admitiu à mãe e ao irmão a própria condição e pediu que fosse internado. “Eu disse que não conseguia mais ficar ali; precisava me internar, mas saindo dali.” Em oito meses de tratamento terapêutico, calcado também em estudos religiosos, ele deixou a unidade em Itaquaquecetuba e se tornou missionário da igreja no atendimento na região da cracolândia paulistana.

“Melhor forma de educar é pelo exemplo”

Coordenador do projeto de judô que revelou Quintiliano, o missionário Lael Rodrigues, 28, afirmou que boa parte dos atendidos na missão são crianças filhos de traficantes ou usuários da cracolândia.

Como fica essa criança que, atendida pelo projeto –em aulas de balé ou jiu-jítsu, por exemplo –, tem pais no tráfico ou na dependência química?

“Não pode ser nossa responsabilidade sermos influência maior que o pai ou mãe para essa criança, mas nem sempre é o que acontece, infelizmente. Mas, normalmente, o traficante não é usuário de drogas – então o filho dele não vê o pai usando porque o traficante faz dinheiro com a droga. Quem usa não faz dinheiro: só se destrói”, define. “Com o filho de usuário a gente consegue ter um relacionamento mais próximo, porque ele vê o que a droga pode fazer – dá para ter uma conversa mais franca e mais aberta do que aquele que nunca viu o consumo em casa”, compara.

No fim da conversa, a reportagem quis saber de Rodrigues: como que voluntários na condição dele se sentem ao ouvir, na sociedade, que os dependentes da cracolândia são caso de polícia ou “zumbis à solta”?

“Fico muito indignado com isso e também com o tanto de preconceito que há, com o que a gente faz, por parte de pessoas que criticam nosso trabalho dizendo que se trata de assistencialismo, de ‘boa vida a vagabundo’. Mas quem diz isso, em geral, está no conforto de seu lar, em uma caminha legal, com comida sobrando e às vezes até sendo jogado fora”, explica.

“A gente encontra nos moradores da cracolândia uma relação de muito amor e respeito, mas, em compensação, tem que escutar isso de gente que não entende, não faz nada e só critica. Só que isso não pode ser algo para desanimar ou desmotivar o nosso trabalho –e o Jhones é a maior prova disso. A melhor forma de educar é pelo exemplo, e é de exemplos como o dele que a gente precisa para se espelhar.”

Fonte: UOL

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