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Conheça pessoas que se livraram das drogas com ajuda de instituições do DF

Problemas com Álcool ou Drogas? Podemos ajudar!
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A PROPOSTA É REABILITAR E RESSOCIALIZAR POR MEIO DO ENSINO PROFISSIONALIZANTE

Ainda que o poder de destruição da droga seja alto, é possível tratar os usuários de álcool, cocaína e crack — este último, o mais lesivo e com maior chance de recaída. Não existe cura, segundo especialistas. Contudo, há ações pontuais e fragmentadas bem-sucedidas em Brasília em que comunidades terapêuticas de recuperação de viciados são capazes de cuidar com sucesso de 40% dos pacientes e garantir o retorno deles à sociedade.

A proposta dessas instituições mescla reabilitação propriamente dita e a ressocialização por meio do ensino profissionalizante, com foco no programa de reinserção social. A casa Missão Vida em Abundância (MVA), em Ponte Alta de Cima, no núcleo rural do Gama, abriga 15 mulheres, entre 18 e 50 anos. À frente deste empreendimento, Marlene Henriques Santana, missionária da Igreja Batista Filadélfia, disse que a proposta é oferecer um novo caminho para essas pessoas. “Nosso trabalho conta com um calendário de diversas atividades ao longo do dia, como oficinas de patchwork e panificação. Cerca de 1,2 mil mulheres já passaram por aqui”, explicou.

O Instituto Crescer, tocado por Areolenes Curcino, acolhe 60 homens. “O primeiro chegou em 20 de outubro de 2010. A casa já promoveu a recuperação de mais de 1 mil homens dependentes, em vulnerabilidade social; a maioria, moradores de rua, com vínculos familiares rompidos”, disse.

De acordo com Areolenes, um fator relevante que contribui para o uso de drogas, principalmente na infância e adolescência, “é o ambiente familiar disfuncional, onde as crianças crescem em contato com violência doméstica, abuso sexual e carências de toda natureza”.

Ainda segundo ela, outra causa que influencia uma pessoa a usar a droga é a curiosidade. “Geralmente, começa com o grupo da escola. Os mais novos observam os comportamentos dos mais velhos e desejam ser como eles. O grande perigo é experimentar”, salientou.

É o caso de W.F.M., de 21 anos, em tratamento no Instituto Crescer. Segundo o jovem, a interferência de alguns colegas de escola e da rua o levou para este caminho. Filho de uma família estruturada e de classe média, ele contou que experimentou a droga pela primeira vez aos 16. “Comecei com o álcool, misturado à maconha, cocaína, LSD e loló. Só não entrei na onda do crack. Saía de manhã de casa e voltava de madrugada. Fui me distanciando da minha família e parei de estudar no segundo ano do Ensino Médio”, lembra.

PRESO POR ROUBO

A situação chegou ao limite quando o jovem entrou em depressão e se automutilou nos antebraços. “Sentia uma dor muito grande e nenhuma vontade de continuar vivendo depois de o efeito da droga passar”, disse o rapaz, que começou a roubar para comprar mais drogas. Acabou sendo preso por participar de um roubo de carro, em outubro de 2016, sendo encaminhado para o Centro de Detenção Provisória (CDP). “Fiquei três dias na carceragem, mas consegui habeas corpus e hoje respondo o processo em liberdade. Minha mãe foi quem me ajudou. Estou internado há cinco meses. Nos primeiros 60 dias, sentia-me indisposto, com muito enjoo. Sonhava que usava drogas e acordava suando frio. Agora isso passou. Já voltei a praticar exercícios e projeto terminar o Ensino Médio. Tenho plano de fazer psicologia”, afirmou.

Psiquiatra especialista em dependência química e representante da Associação Médica de Brasília no Conselho de Políticas sobre drogas do DF, Leonardo Moreira disse que o vício não tem cura e muitos dependentes químicos “lidam com um grande sofrimento e acabam se perdendo pela natureza da doença por não procurar ajuda”. Moreira observou, porém, que existe tratamento que envolve uma reabilitação complexa com fatores neurológicos, emocionais e sociais.

Para o especialista, muitas famílias adoecem também e ficam codependentes. “Por isso, é fundamental buscar ajuda profissional, como também uma mudança cultural na relação de pais com os filhos, de modo a restaurar os vínculos afetivos”, considerou.

DEPOIMENTOS
Vidas quase perdidas

A história de A.A.P., de 34 anos, viciada em crack desde os 22, é como a de muitas mulheres que entraram no mundo das drogas e se perderam na prostituição. Há três anos e quatro meses, ela pediu ajuda e vem sendo tratada em uma organização não governamental, a Missão Vida em Abundância (MVA) em uma chácara no Gama. Não é a primeira vez que A.A.P. fica longe das drogas. Ela revela que já teve duas recaídas ao tentar largar o vício.

“O meu parceiro era usuário em cocaína. Um dia, como não havia pó, usamos o crack. Foi um caminho sem volta”, contou ela, que teve dois filhos com esse homem. “Na primeira gravidez, fumava maconha. Já na segunda, usava de tudo — cocaína, loló, maconha e crack. Mesmo grávida, tive de me prostituir para comprar a droga. Meu companheiro aceitava, porque era viciado igual a mim e precisávamos de dinheiro. Fazia de tudo por uma pedra de crack. Quando meu segundo filho nasceu, não sabia quem era o pai”, contou.

A gestora da MVA, a missionária da Igreja Batista Filadélfia Marlene Henriques Santana e Silva, afirmou que mais de 1,2 mil mulheres, entre 18 e 50 anos, passaram pela instituição ao longo de 23 anos. “Não existe cura, mas cerca de 40% deste total conseguiu largar o crack”, afirmou.

Para ela, a libertação definitiva da droga não existe, mas Marlene acredita que o tratamento é possível. “É um trabalho desafiador. A mulher demora mais um tempo para se tratar, mas existe a possibilidade de ela não usar mais o crack. Contudo, será uma dependente da droga para o resto da vida e não poderá ter contato com o crack, porque o risco de recaída é grande”, alertou.

Entre a dor e a esperança

A trajetória de F.E.R., de 29 anos, é marcada pelo narcotráfico e pelo vício. Aos 15 entrou para esse mundo como avião (quem fornece as drogas ao viciado). Segundo ele, em pouco tempo se tornou traficante. “Não tem jeito. Quando a gente entra nesse caminho se vicia. No meu caso, maconha e cocaína”, lembrou.

F.E.R. levou essa vida até os 26, quando foi preso por homicídio. Encaminhado para o Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, o maior presídio do Maranhão, ele cumpriu pena de oito anos (que foi reduzida para quatro). “A lei do presídio é matar ou morrer”, relatou o homem, que afirmou ter participado da segunda maior carnificina dentro do presídio de Pedrinhas e diz não se orgulhar disso.

Quando saiu da cadeia, F.E.R. contou que foi atrás do seu desafeto para fazer justiça com as próprias mãos. “Percebi a burrada que fiz quando meus rivais vieram atrás de mim. Por isso, tive de fugir, deixando para trás mulher e duas filhas.”

Sem emprego e dependente químico, peregrinou por três estados até chegar a Brasília. “Aprendi, a duras penas, que não valia mais a pena continuar fugindo, roubando para conseguir drogas. Por isso, me internei”. F.E.R. está no abrigo há quatro meses e disse que neste período aprendeu o que é amor. “Bem sei o que é perder quatro anos de vida em uma cadeia”, lamentou. “Preciso recuperar o tempo perdido. Talvez, rever minhas filhas e minha mulher”, disse.

“30 anos jogados no lixo”

H.C.G., de 31 anos, chora ao falar da sua caminhada pelo mundo das drogas. Em julho, ele completa sete meses que está em tratamento. “É uma luta diária ficar em jejum da droga”, comentou. Ele lembra que começou com maconha aos 15 anos. “Cheguei também a experimentar merla, antes do crack. As duas têm o mesmo princípio ativo. E dão muita vontade de usar mais”.

Segundo H.C.G., quando usava as drogas, tinha alucinações e ficava dias sem dormir e sem comer. “Cheguei a pesar 52kg, quando meu peso normal é 81kg”, informou.

Fonte: Correio Brasiliense

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