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Alcoolismo cresce na pandemia; qual o limite entre o lazer e o vício?

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Logo que a pandemia chegou, Márcio Tavares* perdeu o emprego. Isolado em casa, o orientador social de 36 anos entrou numa onda de angústia tão forte que pensou em voltar a beber. O problema é que ele era alcoólatra e estava longe do álcool havia três anos. “Aquela ideia fixa de retornar para o vício me acendeu um alerta. Eu precisava de ajuda para não me afundar outra vez”, lembra.

Foi então que começou a participar das reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Em Curitiba, elas passaram a ser online. Podendo contar sua história e escutar a de outros, Tavares se sentiu acolhido e viu que não estava sozinho. Desde o início da crise sanitária, a procura pelo grupo na cidade subiu 40%, evidenciando um fenômeno global: o aumento no consumo abusivo de álcool.

Um estudo da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) mostrou que entre a faixa etária dos 30 a 39 anos, por exemplo, mais de 35% dos 12 mil entrevistados passaram a consumir doses excessivas em intervalos curtos. O padrão de comportamento preocupa porque, além de o alcoolismo ter implicações fisiológicas, também leva a agravantes sociais, como acidentes de trânsito e violência doméstica.

Um artigo publicado na revista científica Cognitive, Affective & Behavioral Neuroscience aponta que aproximadamente metade dos crimes violentos está relacionada ao uso de álcool. A bebida afeta o córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pela moderação do comportamento e, reduzindo filtros sociais, pode encorajar sujeitos com tendência à agressividade a comprarem brigas repentinas ou agredir filhos e esposa.

Na pandemia, esse fator é ainda mais alarmante, sobretudo para as mulheres. De acordo com uma nota técnica do Fórum de Segurança Pública, o número de feminicídios em São Paulo dobrou já na primeira quinzena de abril do ano passado. Diante de dados assim, a OMS (Organização Mundial de Saúde) solicitou que os governos adotassem medidas para limitar o consumo de bebidas alcoólicas nesse momento.

A preocupação se estende para o “novo normal”. Segundo a médica psiquiatra Mayara Barros, uma das diretoras da SPP (Sociedade Pernambucana de Psiquiatria), a história mostra que o abuso de drogas tende a crescer substancialmente após catástrofes globais, como guerras e crises sanitárias como a enfrentada hoje. O tema, portanto, deve ser mais debatido daqui para frente e o primeiro passo é colocar abaixo velhos estigmas sobre o assunto.

Consumo moderado não garante proteção ao vício

Das vilãs de novelas aos chefões da máfia, o que não falta nas telas é gente bebendo para relaxar. Mas a OMS estabelece um limite de consumo: até 15 doses por semana para homens e 10 para mulheres, sendo que uma dose equivale a aproximadamente 350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 40 ml de uma bebida destilada.

“Lembrando que é preciso haver uma distribuição ao longo dos sete dias. Não vale consumir tudo de uma vez”, alerta Barros. De qualquer forma, não há um nível totalmente seguro. Por isso, todo cuidado é pouco. “Não dá para dizer que quem bebe assim não vai desenvolver adição, nem um problema no fígado. É só uma medida máxima”.

O psiquiatra Arthur Guerra, presidente executivo do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), explica que alguns indivíduos têm mais enzimas no fígado, o que acelera a metabolização da bebida. Nesses casos, tende-se a beber mais para alcançar o efeito que se espera da droga, aumentando o consumo. Mas fatores sociais também influenciam. Sabe-se, por exemplo, que quanto mais cedo se começa a beber, maiores as chances de se tornar dependente. E é por haver tantas variáveis em jogo que se torna difícil saber quem será alcoólatra ou não.

Será que sou alcoólatra?

Embora o quanto se bebe seja um fator importante no diagnóstico do alcoolismo, ele não é o único. Como há diferentes formas de beber, quando, onde e por que se bebe devem entrar nessa balança, conforme explica Barros. “Tem quem beba todos os dias e não seja alcoólatra. Tem quem beba uma vez por semana, mas de modo tão intenso e nocivo, que isso caracteriza um caso de alcoolismo”, diz.

A psiquiatra explica que há algum tempo costumava-se chamar de alcoólatra aquele que bebia até cair e amanhecia na calçada. O velho estereótipo, ligado à fraqueza e à vagabundagem, precisou ser desconstruído dia após dia pela ciência. Há pessoas, por exemplo, que negam ter problemas com álcool porque se interessam apenas por um tipo de bebida ou porque não bebem todos os dias, o que é um erro.

Marília Soares*, 60, é um desses casos. Durante o isolamento social, a investigadora de polícia aposentada aumentou seu consumo de álcool para aliviar a ansiedade na quarentena. Mesmo não bebendo diariamente e não gostando de cerveja, chegou a gastar R$ 1,5 mil com cachaça em um só mês, e, quando bebia, se embriagava tanto que perdia a memória.

Por conta de tantas especificidades, que são químicas, mas também sociais, a categorização da doença tem se aprimorado. O CID-10, código internacional usado para se referir ao alcoolismo, deve ser complementado no ano que vem pelo CID-11, nova categoria ligada ao álcool, lançada durante a Assembleia Mundial de Saúde de 2019.

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Se a questão é um desafio até para especialistas, não é de se espantar que os pacientes nem sempre se reconheçam como dependentes. O problema com álcool tem raízes e implicações tão complexas que muitos morrem sem nunca saírem da fase da negação.

Felizmente, há ferramentas que auxiliam em um pré-diagnóstico. Uma delas é o CAGE, questionário curto que não equivale a uma consulta médica, mas serve como alerta. São quatro perguntas e a sigla em inglês faz referência a cada uma delas:

  • Cut down (cortar) – Você já pensou em largar a bebida?
  • Annoyed by criticism (incomodado com as críticas) – Ficou aborrecido quando outras pessoas criticaram o seu hábito de beber?
  • Guilty (culpado) – Sentiu-se mal ou culpado pelo fato de beber?
  • Eye-opener (olhos abertos) – Bebeu pela manhã para ficar mais calmo ou se livrar de uma ressaca?

Se a pessoa responde sim a duas ou mais questões, é hora de procurar ajuda.

Como tratar o alcoolismo?

Procurar um médico é um passo importante. O tratamento psiquiátrico pode ou não envolver remédios. Guerra explica que há dois tipos de medicamentos: os que diminuem a vontade de beber e os que dão um efeito aversivo ao álcool.

A psicoterapia é outro caminho eficaz. Ao se abrir, o paciente consegue elaborar a própria dor. Para muitos especialistas, a busca excessiva pelo álcool decorre da dificuldade de lidar com a angústia e sintetizá-la em palavras é uma forma de compreendê-la e encará-la de modo saudável.

Outro ponto importante é a presença de uma rede de apoio, que pode ser um grupo como os Alcoólicos Anônimos ou a própria família. A psicóloga e professora da UP (Universidade Positivo) Rafaela de Faria menciona que recaídas tendem a acontecer e é fundamental que pessoas próximas não minimizem o esforço do indivíduo. Cada dia sem beber é um desafio e tanto. E isso deve ser valorizado sempre.

Só mesmo o dependente pode impulsionar sua mudança, admitindo que tem um vício, conforme explica o psiquiatra Luiz Carlos Cantanhede Fernandes Junior, professor da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Enquanto o sujeito seguir dizendo que bebe, mas que aquilo não é nada demais, não há o que as pessoas ao redor possam fazer.

A boa notícia é que quando se decide lutar contra o álcool, a jornada é longa, mas recompensadora. Soares demorou a aceitar que estava doente. Primeiro por ser mulher: “A gente sofre mais preconceito. Não é fácil se assumir”. O segundo empecilho foi o fato de ter lidado com vários alcoólatras quando trabalhava na polícia. “Não podia admitir que eu tinha a mesma doença daqueles para quem eu fechei a grade”.

Quando sentiu culpa pelo uso do álcool, a ficha caiu. “Meu filho fazia vistorias para ver onde eu escondia as garrafas. Eu inventava mentiras para ele não achar. Até que cheguei no meu limite”, conta. Consciente de que precisava sair daquele ciclo, procurou os Alcoólicos Anônimos de Curitiba, onde encontrou apoio. “Só quem passa o mesmo que a gente é capaz de entender o quanto é difícil”. Desde que entrou para o grupo, em março deste ano, não bebeu mais.

Já para Tavares, abstinente há mais tempo, o ponto de virada foi mais trágico. Certa vez, dirigindo embriagado, atropelou outro homem alcoolizado, que faleceu. “Quando fui preso, lembro de ouvir minha mãe dizer ‘não sei mais o que fazer com meu filho. Só estou esperando ele morrer’. Foi então que resolvi mudar. Quem me olha hoje na rua acha que sou outra pessoa. É uma luta diária, mas sigo firme, um dia de cada vez”.

*Os nomes são fictícios para resguardar o anonimato dos membros dos Alcoólicos Anônimos e do Al-Anon.

Fonte: VB

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